A Profa. Maria Esther Maciel, da Faculdade de Letras da UFMG, foi a palestrante convidada para inaugurar os eventos do Ciclo de Debates do segundo semestre de 2007.
O convite se deu em função da perspectiva transdisciplinar das pesquisas desenvolvidas pela Profa. Maria Esther que promove, em seus ensaios críticos, instigantes encontros entre diferentes sistemas semióticos: literatura, cinema, artes plásticas etc.
Na costura de diferentes linguagens, a pesquisadora possui um interesse especial por processos criativos cuja proposta estética se concentra na memória representada por palavras, imagens, objetos. Nessa perspectiva, a autora pesquisou, por exemplo, os “inventários de mundo” do escritor argentino Jorge Luis Borges, do cineasta britânico Peter Greenaway e do artista brasileiro Arthur Bispo do Rosário.
Em sua palestra para o curso Processos Criativos, Maria Esther apresentou uma análise comparativa entre as poéticas de Greenaway e Bispo apontando pontos convergentes nos procedimentos de criação desses artistas, aparentemente tão dissonantes. Essas convergências podem ser mapeadas a partir do trabalho de catalogação empreendido por Bispo em suas obras seriais e por Greenaway ao longo de sua cinematografia, em especial, em seu último projeto As maletas de Tulse Luper.
A professora enfatiza que os “catálogos narrativos” de Bispo não surgiram de uma proposta estética, nem muito menos de um empreendimento intelectual, já que Bispo nem mesmo admitia ser chamado de artista e não teve oportunidade de estabelecer nenhum contato com referenciais estéticos. Como psicótico, internado em um hospital psiquiátrico durante mais de trinta anos, o artista acreditava que todas as suas coleções de objetos guardavam uma memória do mundo e que, após o juízo final, tais objetos voltariam a povoa-lo.
Já Greenaway produz obras seriais de princípios taxionômicos a partir de um sofisticado e híbrido arsenal estético, circulando nos redutos intelectuais e artísticos mais cults.
Para resumir, sobre o trânsito entre caos e ordem da produção dos referidos artistas, Maria Esther enfatiza que “um faz do rigor um delírio; o outro extrai do delírio o rigor”.
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